Mais uma das grandes exposições de 2011, Nick Cave na Mary Boone Gallery. Aqui vai o link para o site da galeria onde se pode encontrar um dos vídeos das performances feitas com os trajes - http://www.maryboonegallery.com/exhibitions/2011-2012/Nick-Cave/index.html
Seres repletos
A entrada da galeria Mary Boone no Chelsea é bastante discreta, não há nenhuma logo extravagante na fachada, apenas uma porta que dá para uma pequena recepção, no fundo da qual, como sempre, um bela moça sentada de trás de uma grande mesa com o cabelo bem cortado, sorri e espia. No canto mais distante da entrada há uma passagem, olhando por sua abertura, para a luz que por ela escapa, não há nada que nos possa preparar para o que há depois dela.
Seres coloridos aguardam, estacionados no centro de uma grande sala, a presença deles e o choque causado pelos objetos e materiais que forjam sua forma e sua pele deixam uma forte impressão mesmo naqueles já acostumados a todo tipo de estátuas, roupas, corpos, e estranhos tipos de ornamentos que uma cidade tão diversa e pluralista quanto Nova Iorque pode apresentar.
Olhando para sua superfície se pode notar que estes corpos são construídos com o acúmulo de estranhos objets trouvé, como pássaros entalhados, corujas de porcelana, bichos de pelúcia, palhaços de brinquedo com suas cambalhotas mecânicas, bonecas vudú, globos escolares, peões de corda, tapeçarias mexicanas, tapetes de banheiros com super-heróis e personagens de desenho animado estampados, cata-ventos, cornetas e pirulitos, bandeirolas, sombreiros, macacos de plástico, bules e xícaras, rodas de carroça e lantejoulas, botões, purpurina, flores artificiais etc. Uma explosão de detalhes e cores que formam uma estranha procissão, um desfile fantasmagórico e fantástico paralisado a espera dos nossos olhos. Uma junção obsessiva do infantil com o ritualístico capaz de causar vertigem e assombro.
Sua identidade parece ser dada pelo sentido e pela memória do uso passado de todos esses objetos e pelas milhares de associações disparadas com a sua justaposição. Para além de uma apreciação do seu valor escultórico intrínseco fica a impressão de que eles transmitem um crítica subliminar. Afinal, quem mais gostaria de ser definido pelos aparelhos e roupas que carrega? Seu exagero parece criar uma caricatura, como uma carapuça que serve.
Outro aspecto destes trabalhos pode ser mais facilmente notado ao tomarmos conhecimento das relações do artista com a dança, ou se tivermos a sorte de testemunhar um dos momentos em que transformam-se de esculturas em figurinos, para tomar parte numa de suas performances. Nick Cave escreveu coreografias específicas para explorar como alguns deles cobertos com pelos coloridos criam efeitos impressionantes ao moverem-se, ou para que produzam sons com seu chacoalhar. Talvez seja esse o por quê de chamar a cada um de “Soundsuit”.
Algumas das figuras mais interessantes desta exposição são feitas de centenas de peças de madeira, reunidas para criar uma topografia rústica e orgânica, como uma armadura natural. Elas tem no lugar de seus rostos grandes cestos, criando aberturas que parecem reforçar a impressão de que se tratam de criaturas sem alma, trazem a estranha sensação de que o mundo, ou nós, quando dela nos aproximamos, podemos ser tragados e despencarmos para dentro do seu vazio. Nos lembram também, o exército Chinês de terracota, como se estivessem a espera de alguma coisa que fosse reanimá-las e trazê-las de volta a vida.
Ao sairmos da exposição ganhamos a rua com a sensação de que vimos contraditas antigas noções metafísicas enunciadas por Aristóteles, como essência e acidente. Segundo ele todo ser tem uma essência que é responsável por realizar sua identidade, que deve ser retida por necessidade. A que ele opõe a noção de acidente, ou as propriedades contingentes de um dado objeto, mesmo sem as quais, ele ainda poderia manter sua identidade. A natureza ambígua das esculturas/trajes, seres/personagens que deixamos pra trás na galeria não parecem respeitar essa distinção, pois sua identidade é determinada pelos acidentes que sobre ela se acumulam para constituí-la. Elas se apresentam, enfim, como a imutável narrativa da sua formação, cada uma delas se sustenta no intrincado arranjo de objetos postos lado a lado, na sequência de associações disparada pelos olhos de acordo com a posição em que a abordamos. Fosse retirado qualquer um destes objetos essa colagem espacial seria alterada, e com ela toda a identidade da obra.
Aristóteles que nos perdoe, mas com Cave ficamos muito mais próximos das idéias do poeta francês Paul Valery, que nos disse para não buscarmos muito alem, pois o que há de mais profundo é a pele. É dela que extraímos aqui a experiência destas obras, que refletem muito bem a nós mesmos e nossa época, com a riqueza e complexidade de sua superficialidade.
